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História

COMO SURGIU A JIK BU KWAN

 

O PORQUÊ

Com o início de uma nova etapa em sua vida, o professor Tadao, ocupado com as tarefas e afazeres fora do Do-Jang, delegou algumas de suas aulas aos alunos graduados que se destacavam. Espantei-me ao reparar que, em pouco tempo, já estava ministrando todas as aulas da academia na região dos Jardins, incluindo os treinos de graduados, aos domingos de manhã. Tudo aconteceu muito rápido. Em meio a essa correria, deparei-me um dia, conversando seriamente com meu professor. Em uma aula de graduado que se tornou reunião, o professor Tadao, sem tempo por toda reviravolta em sua vida profissional e desmotivado pela falta de dedicação de alguns graduados, deu a notícia do que já havia me avisado há alguns meses antes. Tadao me afirmava que não iria mais dar aulas de Hapkido. Deixou-nos, no entanto, a opção de treinarmos com seus mestres. Eu estava na faixa Vermelha Duas Pontas Pretas, 1º Gub.

A PROMESSA

Chorando, entre os 7 graduados que ficaram perplexos com a decisão do nosso Pai, Irmão, Mestre e acima de tudo Protetor, fiquei estático e pela primeira vez, me senti perdido. Ninguém sabia mais o que seria do Hapkido, já que nos faltava dinheiro e tempo para treinar com o mestre do nosso Mestre.
Aos prantos, fiz então uma promessa: “o Hapkido não iria parar ali, pois o que havia aprendido com ele era grande e bonito demais para se perder assim”.
Decidi continuar meu caminho treinando esporadicamente com o mestre. Nesse caminho, fui acompanhado pelos meus alunos e graduados que acreditavam no meu potencial. Motivado e ciente da responsabilidade que aceitei, desenvolvi meus treinos a níveis mais elevados. Em 6 meses me tornei faixa Preta.

O CAMINHO

Mantive o contato com os mestres do meu Mestre durante 1 ano aproximadamente, na tentativa de aprimorar os ensinamentos passados, alcançando a excelência técnica daquele Hapkido tão magnífico que meu Pai marcial havia me mostrado.
Encontrei, no entanto, grandes diferenças e inversões de valores, atitudes e princípios. Descobri que o Hapkido não era para todos os mestres a mesma arte que meu professor havia me ensinado em 3 anos e 5 meses de treino.
Essa outra visão do Hapkido impossibilitou o convívio com meus novos mestres.
Comecei a entender por que presenciei a saída da federação de muitos amigos meus, professores e mestres, sendo chamados de “traidores”, “*porcarias”, entre outras coisas, pelos ditos mestres.

(*) Porcaria era o termo usado por um mestre quando não considerava suficiente o esforço do atleta. Não citarei nomes por motivos éticos.

A DECEPÇÃO

Compreendi a indignação de meus amigos e, um tempo depois, me encontrei na mesma situação que eles em um exame de faixa. Recebia meu Certificado de Faixa Preta, em meio a um evento com 50 alunos, pais e convidados. Ao final de cada exame de graduação, os mestres realizavam uma série de perguntas aos alunos. Conforme apontávamos respostas consideradas erradas a respeito de quem eram nossos mestres, fomos chamados de “PORCARIAS” por aquele mestre que se considerava digno de ofender um artista marcial.
Mas o pior ainda estava por vir. Ao final do exame, fui convidar a todos para participar de uma confraternização. Foi quando me surpreendi com as palavras de um dos pais presentes: “Pra que festa, se meu filho é chamado de porcaria e treina com outra porcaria?”. As atitudes de meus ditos “mestres” provocaram a perda de 4 alunos naquele mesmo dia.
Como fiquei triste! Estava desapontado com todas essas atitudes! Fiquei me perguntando o que tornava os praticantes de artes marciais tão gananciosos e prepotentes. Cheguei até a me entristecer com o próprio Hapkido e culpar a mim mesmo por aquilo tudo! Passado o momento de estresse e indignação, no entanto, consegui analisar a situação e encontrar os verdadeiros culpados.

A CONSEQÜÊNCIA

Tirei aquela venda que me tornava submisso às ameaças dos mestres, e procurei meus antigos amigos, os ditos “traidores”, como eram chamados. Após longas conversas, descobri o motivo de suas saídas.
Fui convidado a participar de um campeonato realizado por eles, onde fomos bem recebidos. Após o evento, recebi mais um convite: participar de uma nova federação. Prometi pensar no assunto, pois precisava conversar com os mestres e com todos os outros que me acompanhavam.

A DECISÃO

Antes que eu dissesse alguma coisa, os mestres ficaram sabendo, por outras pessoas, que havíamos participado do campeonato dos “traidores”. Indignados, convocaram a mim, ao professor Tadao e mais seis faixas vermelhas para uma reunião.
Nesse encontro, tivemos a atenção chamada pela atitude e respeitamos a repreensão. Concordamos, no entanto, em aproveitar a oportunidade para reivindicar a respeito de algumas coisas que sentíamos falta e outras que considerávamos exageradas. Entre elas, abordamos:
– A falta de aulas com os mestres a mais de 2 anos;
– Os altíssimos valores de exames de graduação e mensalidades;
– A falta de retorno do dinheiro arrecadado em campeonatos, alvarás e carteirinhas para a melhoria do Hapkido.
O retorno ao contato com antigos amigos chamados de “traidores”, incitou nossas mentes. Começamos a questionar certas atitudes e a analisar os acontecimentos e comportamentos do Hapkido que nos era ensinado.
Meus questionamentos resultaram em tristes respostas. Não adiantaria esforço ou dedicação, arrecadação de dinheiro por campeonatos, exames e eventos, pois nada seria revertido para o Hapkido. Os mestres, cada vez mais gananciosos, tomavam a postura de poderosos chefões.
Alcancei outra descoberta através de acessos à internet, livros, revistas e outros meios de pesquisa. Nossos “mestres” utilizavam a falta de informação a respeito da arte do Hapkido para criar e desenvolver suas próprias estórias e explicações.
Enganados, acabávamos aceitando suas regras e imposições além de acreditar cegamente que não existiam outros estilos e mestres de Hapkido no Brasil. Fomos ensinados que a arte havia sido criada em 500 a.C. e que o “MESTRE” era a pessoa que a havia trazido para o Brasil. Tornamo-nos submissos e atrelados a uma mentira. A exploração a qual éramos submetidos nos exames de faixa, por exemplo, ficava evidente. O valor de US$ 500,00 (quinhentos dólares) cobrado para o recebimento de um diploma, sem procedência, era cinco vezes maior do que o verificado nas Federações Coreanas.
Ao tocar em assuntos como esses durante a reunião, a conversa tão amigável e cheia de respeito e hierarquia, tornou-se uma discussão agressiva. A educação e tradição marcial foram trocadas pela mudança no tom de voz que ameaçava nos expulsar e até mesmo fechar nossa academia se ousássemos nos opor ao que existia. O poder de persuasão quase teve êxito em alcançar o pedido de desculpas que todos nós fomos obrigados a fazer ao “mestre”. Eu, no entanto, me recusei a pedir desculpas por colocações reais e comprovadas de explorações, imposições e mentiras. Com essa atitude, fui declarado expulso da equipe.

O SURGIMENTO DA JIK BU KWAN HAPKIDO

Uma semana depois, eu estava fundando a Equipe Tadao, em uma reunião com todos os presentes da reunião anterior e com a presença e apoio do próprio Professor Tadao. O nome da equipe homenageia, naquele momento, para quem tanto se dedicou a ensinar não apenas golpes ou técnicas, mas um caminho de vida ético e através do Hapkido.
A princípio o Tadao foi resistente ao nome dele a frente, pois estava afastado. Então, ficou combinado que assim que descobrissemos o significados dos kandis no nome, colocassemos em coreano, o nome seria alterado.